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Antonio Francisco Jr , da Atonus
Engenharia, conta sua história: o doutor virou
empreendedor!
Adriana
Abelhão
A Atonus
Engenharia de Sistemas Ltda foi fundada por
Antônio Francisco Júnior, engenheiro,
ex-pesquisador no Inpe e PhD em Visão Robótica,
ciência que estuda a análise de imagens por meio
do computador. Antônio comanda sozinho a
empresa, que está há 9 anos no mercado. A Atonus
desenvolve produtos aliando tecnologia de
captação de imagens, informática e biomédica.
Por meio de imagens capturadas por uma
microcâmera, que são inseridas no computador, a
empresa criou equipamentos e softwares para
diagnosticar câncer de pele, lesões cutâneas e
fazer análise de sêmen e cromossomos humanos. A
Atonus tem produtos diversificados. Além da
linha biomédica desenvolve sistemas para
automatizar e arquivar diagnósticos de exames
laboratoriais, aplicativos para estabelecimentos
comerciais, como óticas, e equipamentos para
calibrar painéis e instrumentos automotivos na
linha de montagem de indústrias de automóveis.
Em dois de seus projetos, para o desenvolvimento
de um vídeo-dermatoscópio e do sistema
computacional para análise de cromossomos
humanos, a Atonus contou com financiamento da
Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São
Paulo), um financiamento da fundo perdido
disponibilizado pelo programa Pipe (Programa Inovação
Tecnológica em Pequenas
Empresas). Com a experiência
de quem deixou a área acadêmica para ser
empresário e assumir riscos, Antônio fala sobre
empreendedorismo, que considera "o melhor
emprego do mundo."
Sou
de uma família de médicos. Meu pai foi uma pessoa
muito querida nessa área: nasceu no interior do
Estado do Rio e todos de sua cidade ou nasceram
com ele ou foram operados por ele na Santa Casa de
lá. Três dos seus cinco filhos são cirurgiões.
Convivi com discussões sobre medicina na hora do
almoço desde menino e ia muito com o meu pai à
Santa Casa. Lá via aplicações médicas em todos os
lugares. Como gostava de mecanismos, acabei
seguindo para engenharia e naturalmente voltei o
foco para a medicina. Sempre gostei de fazer
equipamentos médicos.
Entre 1982
e 1999, trabalhei em vários departamentos no Inpe
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -, nas
áreas de sistemas e controle. Em 1989, no
Departamento de Processamento de Imagem, comecei a
mexer com captura de imagem. Pedi para o pessoal
do desenvolvimento criar uma placa de vídeo para
mim, com interface para ler a partir de uma câmera
de vídeo. Como eu gostava da área médica consegui
vender a idéia de leitura de imagens para um
laboratório de fertilidade, o Fertility. O
laboratório comprou a placa por US$ 6 mil, de uma
empresa associada ao Inpe. A placa tinha interface
para uma câmera e foi usada para fazer análise do
sêmen humano. É um sistema de visão por computador
para, por exemplo, a análise morfológica do
espermatozóide, em exames como o espermograma.
Ao final
da década de 90 a situação no Brasil estava muito
ruim. Foi a época do presidente Collor. Eu tinha
amigos vendendo salgadinhos na porta da escola.
Decidi sair do País. Consegui uma bolsa RHAE -
Recurso Humano em Área Estratégica - do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) e fui para os Estados Unidos.
Lá trabalhei no GRASP - General Robotics and
Active Sensory Perception, da Universidade da
Pensilvânia, em um laboratório voltado para
robótica.
Eu já conhecia
processamento de imagem e quando fui para lá pude
juntar esse conhecimento ao estudo do sistema
visual humano. Num laboratório, encontrei uma
cabeça de robô que ninguém estava usando mais.
Gostei particularmente da cabeça de robô e comecei
a trabalhar com o dispositivo eletrônico e
mecânico que mexia as câmeras que simulavam os
movimentos do olho humano. Propus uma teoria para
o movimento dessas câmeras. Dei o nome de micro
movimento de vergência. Recentemente, essa teoria
foi testada psicofisicamente e parece que é o que
está mais de acordo com o olho humano. Ela parte
do pressuposto de que, em vez de medir o objeto
que está no mundo por pura geometria, o olho
humano está sempre se mexendo e a gente tem uma
informação muito apurada de onde o objeto está.
Entrei com essa teoria de micro movimento de
vergência no laboratório GRASP, mas não conseguia
prová-la com aquela cabeça de robô. Então fui
convidado para trabalhar na Suécia. O governo
sueco pagou estadia, salário e tudo. Pedi
afastamento não remunerado do Inpe e fui trabalhar
no Computation Vision & Active Perception Lab,
em Estocolmo. Morei lá dois anos e pouco. A cabeça
de robô deles era muito boa. Correlacionei minha
teoria do micro movimento com a robótica e ao
final peguei gosto em analisar a parte humana e a
parte robótica, juntas.
Quando voltei para o
Brasil, ao final de 1993, estava decidido a sair
do Inpe. Em abril de 1995 criei a Atonus, mas
fiquei ainda no Inpe até 1999. Ela ficou incubada
na extinta Fundação Polovale, em São José dos
Campos. Entre 1995 e 1999 a empresa não teve muita
atividade. Eu só tinha tempo para voltar para a
Atonus por volta das 17h30. Jornada dupla mesmo,
não tinha como. Botei uma pessoa lá dentro, um
analista de sistemas, para cuidar do escritório.
Lembro até o quanto ele ganhava: 500 reais.
Resolvi constituir a empresa formalmente desde o
começo. Um amigo me dizia que o tempo de uma
empresa no mercado tem valor. Estamos há nove anos
sem quebrar, o que é difícil hoje em
dia.
Não pensei
que ia ganhar dinheiro nos primeiros anos. Já que
eu ia montar a empresa e gosto dessa área de
processamento de imagem, não vou fazer qualquer
coisa, pensei. Qual a melhor máquina, o melhor
software, a melhor plataforma - era o que
eu me perguntava. Vinha de um meio no qual as
pessoas valorizavam outras coisas, só que sabia
que o mercado não corresponderia àquela
expectativa científica. Precisava de uma
aplicação. Eu já tinha aquela do sêmen humano.
Fizemos o desenvolvimento e foi o primeiro produto
da Atonus - chama-se
Sêmen-Análise. Hoje ele é usado por um grupo do
Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em
clínicas e até em Belém do Pará. O problema é que
o mercado é muito restrito, porque os convênios
médicos não pagam o valor justo para esse exame,
com o nível de detalhe que ele tem.
Eu queria
saber se não havia um outro produto, além do
Sêmen-Análise. Conheci uma pessoa da área de
óticas. Ela viajava muito e tinha visto lá fora um
produto que tirava fotos das pessoas e as
apresentava no computador. Para cada foto a pessoa
colocava uns óculos diferentes e assim podia
ver-se ao mesmo tempo na tela do computador, com
diferentes modelos de óculos e comparar, para a
escolha final. O que as pessoas desconhecem é que
a memória visual humana para o detalhe é de
extrema curta duração. É menos do que um segundo.
O que acontece? Você bota três armações de óculos
na frente da pessoa. Ela experimenta uma, tira,
experimenta outra e tira. Quando você experimentou
os segundos óculos, já esqueceu os detalhes do
primeiro. E dai você acaba passando a escolha para
uma pessoa que está ao lado, ou para o
esteticista. Achei interessante. "Taí" uma
aplicação. Fui a uma feira de ótica, vi aquele
movimento, uma porção de gente, pensei "taí" um
bom mercado, vamos desenvolver um negócio
desse.
O nosso
primeiro cliente pagou pelo produto, um
software que se chama Infoco, o equivalente
a mil reais. Comprou um PC, uma placa de captura
de imagem e uma câmera, que era caseira. Esses mil
reais foram a primeira coisa que eu recebi nos
primeiros dois anos de empresa. Achei uma fortuna
(risos). Aí começamos a desenvolver esse produto.
Desde aquela época, vendemos para umas 240 óticas,
mais ou menos.
Depois,
desenvolvemos outro processo para medição ótica. A
fabricante dos óculos e lentes da Bausch &
Lomb me chamou ao Rio Janeiro. Eles usavam uma
anotação que existe na armação para calibrar um
sistema no computador que calcula o centro da
pupila em relação à armação dos óculos. Havia na
época um sistema italiano que usava ultra-som, mas
que não tinha uma medida muito precisa. O sistema
custava US$ 11 mil. Eu lancei o meu que custava R$
1,7 mil e fazia a medida certa.
Essas
experiências foram muito legais porque fiz muita
amizade nesse mundo ótico. Comecei a colocar um
stand da Atonus em feira. Em 1997 eu ainda estava
no Inpe, mas já havia três pessoas trabalhando na
Atonus. Um que atendia ao telefone, outro no
desenvolvimento e um terceiro que fazia a parte
comercial. É muito interessante esse ramo de ótica
no Brasil, tem muita família. O dono está ali,
então você vê com ele o problema de demanda.
Acabei sendo um elo de orientação para o pessoal e
algumas óticas aumentaram o movimento com os
nossos produtos. Hoje, a Atonus tem um segmento
muito forte na área biomédica, mas não faço só
isso. Temos, por exemplo, uma máquina que
inspeciona, por meio de visão computadorizada, o
posicionamento dos ponteiros e calibra o
conta-giros do velocímetro do painel do Golf.
Todos eles são calibrados por nós. Para o Golf e
para o Gol. São fabricados mais de 700 painéis por
dia.
Enquanto
trabalhei no Inpe, o processo era lento na
empresa. Naquela época, no Inpe, acreditavam que
as pessoas do centro de pesquisa não deveriam
estar envolvidas com empresas. Era um problema. A
única coisa que cresce na sombra é samambaia.
Empresa, sem suporte, não cresce. Sair do emprego
para montar uma empresa é importante, mas deve
haver uma certa segurança. Se existe uma
incubadora, fica mais fácil. Provavelmente, eu não
sairia do Inpe se fosse arrimo de família, porque
seria um risco muito elevado. Mas é extremamente
frutífero o pesquisador, professor ou o cientista,
participarem de alguma forma de alguma empresa,
por exemplo, como chefe de Pesquisa e
Desenvolvimento, ou receber royalties por
suas invenções.
Não é
frutífero a pessoa abrir toda uma estrutura
empresarial sem ter um produto. Um pesquisador da
universidade talvez fique um pouco sem noção do
que é uma empresa. Quando você está na praça, está
sujeito a não te pagarem. Eu tinha um cliente que
assinou um contrato para compra do Infoco de R$ 7
mil. Ele tinha mais de 30 óticas, um faturamento
altíssimo e não me pagou. Você está sujeito a
isso, a problemas trabalhistas, ao aumento da
conta do telefone. Se não aprende a gerenciar isso
tudo, cria uma empresa que não está apta a
competir. É algo que vai se aprendendo, registrar
as patentes no INPI, controlar gastos. Até na hora
de discutir um link na Internet,
você se preocupa também. Tem custos, riscos, mas
continuo achando que minha empresa é o melhor
emprego do mundo.
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