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22 de Outubro de 2004
VIDA REAL


Antonio Francisco Jr , da Atonus Engenharia,
conta sua história: o doutor virou empreendedor!

Adriana Abelhão

A Atonus Engenharia de Sistemas Ltda foi fundada por Antônio Francisco Júnior, engenheiro, ex-pesquisador no Inpe e PhD em Visão Robótica, ciência que estuda a análise de imagens por meio do computador. Antônio comanda sozinho a empresa, que está há 9 anos no mercado. A Atonus desenvolve produtos aliando tecnologia de captação de imagens, informática e biomédica. Por meio de imagens capturadas por uma microcâmera, que são inseridas no computador, a empresa criou equipamentos e softwares para diagnosticar câncer de pele, lesões cutâneas e fazer análise de sêmen e cromossomos humanos. A Atonus tem produtos diversificados. Além da linha biomédica desenvolve sistemas para automatizar e arquivar diagnósticos de exames laboratoriais, aplicativos para estabelecimentos comerciais, como óticas, e equipamentos para calibrar painéis e instrumentos automotivos na linha de montagem de indústrias de automóveis. Em dois de seus projetos, para o desenvolvimento de um vídeo-dermatoscópio e do sistema computacional para análise de cromossomos humanos, a Atonus contou com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), um financiamento da fundo perdido disponibilizado pelo programa Pipe (Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas). Com a experiência de quem deixou a área acadêmica para ser empresário e assumir riscos, Antônio fala sobre empreendedorismo, que considera "o melhor emprego do mundo."


Foto: Adriana AbelhãoSou de uma família de médicos. Meu pai foi uma pessoa muito querida nessa área: nasceu no interior do Estado do Rio e todos de sua cidade ou nasceram com ele ou foram operados por ele na Santa Casa de lá. Três dos seus cinco filhos são cirurgiões. Convivi com discussões sobre medicina na hora do almoço desde menino e ia muito com o meu pai à Santa Casa. Lá via aplicações médicas em todos os lugares. Como gostava de mecanismos, acabei seguindo para engenharia e naturalmente voltei o foco para a medicina. Sempre gostei de fazer equipamentos médicos.


Entre 1982 e 1999, trabalhei em vários departamentos no Inpe - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -, nas áreas de sistemas e controle. Em 1989, no Departamento de Processamento de Imagem, comecei a mexer com captura de imagem. Pedi para o pessoal do desenvolvimento criar uma placa de vídeo para mim, com interface para ler a partir de uma câmera de vídeo. Como eu gostava da área médica consegui vender a idéia de leitura de imagens para um laboratório de fertilidade, o Fertility. O laboratório comprou a placa por US$ 6 mil, de uma empresa associada ao Inpe. A placa tinha interface para uma câmera e foi usada para fazer análise do sêmen humano. É um sistema de visão por computador para, por exemplo, a análise morfológica do espermatozóide, em exames como o espermograma.


Ao final da década de 90 a situação no Brasil estava muito ruim. Foi a época do presidente Collor. Eu tinha amigos vendendo salgadinhos na porta da escola. Decidi sair do País. Consegui uma bolsa RHAE - Recurso Humano em Área Estratégica - do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e fui para os Estados Unidos. Lá trabalhei no GRASP - General Robotics and Active Sensory Perception, da Universidade da Pensilvânia, em um laboratório voltado para robótica.

Eu já conhecia processamento de imagem e quando fui para lá pude juntar esse conhecimento ao estudo do sistema visual humano. Num laboratório, encontrei uma cabeça de robô que ninguém estava usando mais. Gostei particularmente da cabeça de robô e comecei a trabalhar com o dispositivo eletrônico e mecânico que mexia as câmeras que simulavam os movimentos do olho humano. Propus uma teoria para o movimento dessas câmeras. Dei o nome de micro movimento de vergência. Recentemente, essa teoria foi testada psicofisicamente e parece que é o que está mais de acordo com o olho humano. Ela parte do pressuposto de que, em vez de medir o objeto que está no mundo por pura geometria, o olho humano está sempre se mexendo e a gente tem uma informação muito apurada de onde o objeto está. Entrei com essa teoria de micro movimento de vergência no laboratório GRASP, mas não conseguia prová-la com aquela cabeça de robô. Então fui convidado para trabalhar na Suécia. O governo sueco pagou estadia, salário e tudo. Pedi afastamento não remunerado do Inpe e fui trabalhar no Computation Vision & Active Perception Lab, em Estocolmo. Morei lá dois anos e pouco. A cabeça de robô deles era muito boa. Correlacionei minha teoria do micro movimento com a robótica e ao final peguei gosto em analisar a parte humana e a parte robótica, juntas.


Quando voltei para o Brasil, ao final de 1993, estava decidido a sair do Inpe. Em abril de 1995 criei a Atonus, mas fiquei ainda no Inpe até 1999. Ela ficou incubada na extinta Fundação Polovale, em São José dos Campos. Entre 1995 e 1999 a empresa não teve muita atividade. Eu só tinha tempo para voltar para a Atonus por volta das 17h30. Jornada dupla mesmo, não tinha como. Botei uma pessoa lá dentro, um analista de sistemas, para cuidar do escritório. Lembro até o quanto ele ganhava: 500 reais. Resolvi constituir a empresa formalmente desde o começo. Um amigo me dizia que o tempo de uma empresa no mercado tem valor. Estamos há nove anos sem quebrar, o que é difícil hoje em dia.


Não pensei que ia ganhar dinheiro nos primeiros anos. Já que eu ia montar a empresa e gosto dessa área de processamento de imagem, não vou fazer qualquer coisa, pensei. Qual a melhor máquina, o melhor software, a melhor plataforma - era o que eu me perguntava. Vinha de um meio no qual as pessoas valorizavam outras coisas, só que sabia que o mercado não corresponderia àquela expectativa científica. Precisava de uma aplicação. Eu já tinha aquela do sêmen humano. Fizemos o desenvolvimento e foi o primeiro produto da Atonus - chama-se Sêmen-Análise. Hoje ele é usado por um grupo do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em clínicas e até em Belém do Pará. O problema é que o mercado é muito restrito, porque os convênios médicos não pagam o valor justo para esse exame, com o nível de detalhe que ele tem.


Eu queria saber se não havia um outro produto, além do Sêmen-Análise. Conheci uma pessoa da área de óticas. Ela viajava muito e tinha visto lá fora um produto que tirava fotos das pessoas e as apresentava no computador. Para cada foto a pessoa colocava uns óculos diferentes e assim podia ver-se ao mesmo tempo na tela do computador, com diferentes modelos de óculos e comparar, para a escolha final. O que as pessoas desconhecem é que a memória visual humana para o detalhe é de extrema curta duração. É menos do que um segundo. O que acontece? Você bota três armações de óculos na frente da pessoa. Ela experimenta uma, tira, experimenta outra e tira. Quando você experimentou os segundos óculos, já esqueceu os detalhes do primeiro. E dai você acaba passando a escolha para uma pessoa que está ao lado, ou para o esteticista. Achei interessante. "Taí" uma aplicação. Fui a uma feira de ótica, vi aquele movimento, uma porção de gente, pensei "taí" um bom mercado, vamos desenvolver um negócio desse.


O nosso primeiro cliente pagou pelo produto, um software que se chama Infoco, o equivalente a mil reais. Comprou um PC, uma placa de captura de imagem e uma câmera, que era caseira. Esses mil reais foram a primeira coisa que eu recebi nos primeiros dois anos de empresa. Achei uma fortuna (risos). Aí começamos a desenvolver esse produto. Desde aquela época, vendemos para umas 240 óticas, mais ou menos.


Depois, desenvolvemos outro processo para medição ótica. A fabricante dos óculos e lentes da Bausch & Lomb me chamou ao Rio Janeiro. Eles usavam uma anotação que existe na armação para calibrar um sistema no computador que calcula o centro da pupila em relação à armação dos óculos. Havia na época um sistema italiano que usava ultra-som, mas que não tinha uma medida muito precisa. O sistema custava US$ 11 mil. Eu lancei o meu que custava R$ 1,7 mil e fazia a medida certa.


Essas experiências foram muito legais porque fiz muita amizade nesse mundo ótico. Comecei a colocar um stand da Atonus em feira. Em 1997 eu ainda estava no Inpe, mas já havia três pessoas trabalhando na Atonus. Um que atendia ao telefone, outro no desenvolvimento e um terceiro que fazia a parte comercial. É muito interessante esse ramo de ótica no Brasil, tem muita família. O dono está ali, então você vê com ele o problema de demanda. Acabei sendo um elo de orientação para o pessoal e algumas óticas aumentaram o movimento com os nossos produtos. Hoje, a Atonus tem um segmento muito forte na área biomédica, mas não faço só isso. Temos, por exemplo, uma máquina que inspeciona, por meio de visão computadorizada, o posicionamento dos ponteiros e calibra o conta-giros do velocímetro do painel do Golf. Todos eles são calibrados por nós. Para o Golf e para o Gol. São fabricados mais de 700 painéis por dia.


Enquanto trabalhei no Inpe, o processo era lento na empresa. Naquela época, no Inpe, acreditavam que as pessoas do centro de pesquisa não deveriam estar envolvidas com empresas. Era um problema. A única coisa que cresce na sombra é samambaia. Empresa, sem suporte, não cresce. Sair do emprego para montar uma empresa é importante, mas deve haver uma certa segurança. Se existe uma incubadora, fica mais fácil. Provavelmente, eu não sairia do Inpe se fosse arrimo de família, porque seria um risco muito elevado. Mas é extremamente frutífero o pesquisador, professor ou o cientista, participarem de alguma forma de alguma empresa, por exemplo, como chefe de Pesquisa e Desenvolvimento, ou receber royalties por suas invenções.


Não é frutífero a pessoa abrir toda uma estrutura empresarial sem ter um produto. Um pesquisador da universidade talvez fique um pouco sem noção do que é uma empresa. Quando você está na praça, está sujeito a não te pagarem. Eu tinha um cliente que assinou um contrato para compra do Infoco de R$ 7 mil. Ele tinha mais de 30 óticas, um faturamento altíssimo e não me pagou. Você está sujeito a isso, a problemas trabalhistas, ao aumento da conta do telefone. Se não aprende a gerenciar isso tudo, cria uma empresa que não está apta a competir. É algo que vai se aprendendo, registrar as patentes no INPI, controlar gastos. Até na hora de discutir um link na Internet, você se preocupa também. Tem custos, riscos, mas continuo achando que minha empresa é o melhor emprego do mundo.

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